Você está no e-book jornalismo digital

Escrito para o livro “Mapeamento do Ensino de Jornalismo Digital”, publicado pelo Itaú Cultural, este texto é um “resumão” acadêmico “o você precisa saber sobre jornalismo digital hoje”.

por Aline Strelow, Ana Gruszynski e Vitor Necchi (remixado por Leonardo Foletto). Fonte: Livro Mapeamentos do Ensino de Jornalismo Digital, p. 18-29.  

Como prática social condicionada historicamente, o jornalismo vem atravessando mudanças significativas desde sua constituição. O desenvolvimento da atividade é sistematizado por Marcondes Filho (2000) em cinco fases, que compreendem desde as primeiras manifestações do gênero até a contemporaneidade. Em linhas gerais, a pré-história do jornalismo (1631-Revolução Francesa) assinala um período em que saberes restritos a determinados grupos detentores de poder passam a circular por meio dos jornalistas.

_ O primeiro jornalismo (1789-1830) abarca a profissionalização dos jornais, quando se destacam seus fins pedagógicos e de formação política.

_ O segundo jornalismo (metade século XIX-início século XX) é marcado pela conformação da imprensa moderna regida pelas exigências capitalistas, período em que se confrontam mais fortemente as noções de opinião e informação no campo.

_ O terceiro jornalismo (início século XX-década 1960), por sua vez, é caracterizado pelos monopólios das empresas de comunicação, em que as indústrias publicitárias e de relações públicas tensionam as práticas jornalísticas.

_ O quarto jornalismo (1970-contemporaneidade) é o jornalismo da era tecnológica, que se inicia com a introdução dos computadores nos processos editoriais.

A popularização da internet na década de 1990 assinala o amplo uso das tecnologias digitais, com destaque para a interatividade, a velocidade de circulação de informação e a valorização da visualidade, que implicaram profundas mudanças na profissão. Se, em um primeiro momento, as alterações tecnológicas tiveram maior impacto na produção industrial, no âmbito do trabalho cotidiano dos profissionais na produção das notícias, isso se dá, sobretudo, com a constituição da web como nova mídia.

Nesse sentido, Machado (2010) afirma que contemporaneamente se destacam dois usos distintos das redes telemáticas: um em que elas auxiliam na coleta de dados para o desenvolvimento de material para os meios clássicos, e outro em que todas as etapas produtivas se dão no espaço de rede, da pesquisa à circulação. Por outro lado, se na prática profissional os meios tradicionais são frequentemente tomados como referência estrutural para a produção de conteúdos dirigidos ao ciberespaço, será justamente na expansão de tal perspectiva que se dará a distinção do jornalismo digital.

ETAPAS DE DESENVOLVIMENTO

Pavlik (2001) entende que as transformações no campo passam pela natureza do conteúdo, do trabalho jornalístico, da estrutura das redações e das empresas jornalísticas, bem como pelas relações entre organizações de notícias, jornalistas e seus diferentes públicos. Para o autor, é possível identificar estágios ou fases do jornalismo na web: a primeira, assinalada pelo uso de conteúdos produzidos originalmente pelo jornal impresso e sua adaptação para veiculação na internet. A segunda fase, já voltada para a circulação on-line, abrangeria tanto aspectos de design como de edição de conteúdos direcionados. O terceiro estágio implicaria o desenvolvimento de projetos específicos para a rede, incorporando a atualização contínua de informações. Aplicados dentro de intervalos de tempo bastante reduzidos, praticamente de forma contínua, romperam com a periodicidade diária. Mielniczuk (2003), utilizando o termo webjornalismo e em linha similar a Pavlik, propõe a divisão em três gerações:

1) Webjornalismo de primeira geração

Os produtos oferecidos, num primeiro momento, eram reproduções de partes dos grandes jornais impressos, agora publicados na internet. As primeiras experiências realizadas não passavam da transposição de uma ou duas das principais matérias de algumas editorias. A dinâmica de publicação seguia o ritmo do jornal impresso, com atualização a cada 24 horas. Nessa fase, os produtos são, em sua maioria, cópias para a web do conteúdo de jornais existentes no papel. Logo, a rotina de produção de notícias é totalmente atrelada ao modelo estabelecido nos jornais impressos. Não há evidências de uma preocupação em inovar na apresentação da narrativa jornalística com base nas novas possibilidades ofere cidas pelo suporte digital.

2) Webjornalismo de segunda geração:

No fim da década de 1990, com o aperfeiçoamento e desenvolvimento da estrutura técnica da internet no país, identifica-se uma segunda fase do jornalismo digital. Mesmo atrelado ao modelo do jornal impresso, começam a ocorrer experiências no produto jornalístico na tentativa de explorar as características oferecidas pela rede. As publicações para a internet, ao mesmo tempo em que se ancoram no modelo do jornal impresso para a elaboração das interfaces dos produtos, começam as explorar as potencialidades do novo suporte. Surgem os links com chamadas para notícias de fatos que acontecem no período entre as edições impressas, o e-mail passa a ser utilizado como ferramenta de comunicação, seja entre jornalistas e leitores, seja entre leitores e outros leitores, em fóruns e listas de discussão. A elaboração das notícias passa a explorar os recursos oferecidos pelo hipertexto. A tendência, nesse momento, ainda é a existência de produtos vinculados não só ao modelo do jornal impresso como produto, mas também às empresas jornalísticas cuja credibilidade e rentabilidade estavam associadas ao jornalismo impresso.

3) Webjornalismo de terceira geração

Com a crescente popularização da internet e com o surgimento de iniciativas empresariais e editoriais destinadas a esse suporte, o cenário começa a se modificar. Os sites jornalísticos extrapolam a ideia de uma versão para a web de jornais impressos existentes. É possível observar tentativas de explorar e aplicar as potencialidades oferecidas pela web para fins jornalísticos. Os produtos passam a apresentar recursos multimídia, como sons e animação; recursos de interatividade, como chats, enquetes e fóruns; e disponibilizam opções para a configuração personalizada. O hipertexto, nesse momento, passa a ser utilizado não apenas como um recurso de organização das informações da edição, mas também começa a ser empregado na narrativa dos fatos. Além dessas características, destaca-se, também, a memória (PALACIOS, 2002), já que a acumulação de informações é mais viável técnica e economicamente na web do que em outras mídias. Ou seja, o volume de informação produzida é maior no jornalismo digital e as notícias publicadas podem ser armazenadas por meio da criação de arquivos, que podem ser acessados tanto por jornalistas quanto por leitores.

QUARTA GERAÇÃO: E HOJE?

Considerando que os processos produtivos incorporam cada vez mais a automatização e as bases de dados, apresenta-se uma quarta geração. Nela, as estruturas de apuração, produção e circulação de conteúdos são adequadas às características do ciberespaço e dependentes de tais bases (MACHADO et al., 2007). Na etapa de transição entre a terceira e a quarta geração, dá-se o surgimento do modelo de jornalismo em base de dados (BARBOSA, 2008), proposto como um paradigma para sites jornalísticos de perfil dinâmico. Conforme a autora, a atual geração parece ter as bases de dados como um elemento estruturante. Entre as principaiscaracterísticas que definem o período, ela destaca:
_ equipes mais especializadas;
_ desenvolvimento de sistemas de gestão de conteúdos mais complexos, baseados em softwares e linguagens de programação open source;
_ acesso expandido por meio de conexões banda larga;
_ proliferação de plataformas móveis;
_ consolidação do uso de blogs;
_ ampla adoção de recursos da web 2.0;
_ incorporação de sistemas que habilitam a participação efetiva do usuário na produção de peças informativas;
_ produtos diferenciados criados e mantidos de modo automatizado;
_ sites dinâmicos;
_ narrativas multimídia;
_ utilização de recursos como RSS (Really Simple Syndication) para recolher, difundir e compartilhar conteúdos;
_ aplicação da técnica do tagging na documentação e na publicação das informações;
_ uso crescente de aplicações mash-up;
_ uso crescente do conceito de geolocalização de notícias;
_ uso do podcasting para distribuição de conteúdos em áudio;
_ ampla adoção do vídeo em streaming;
_ novos elementos conceituais para a organização da informação;
_ maior integração do material de arquivo na oferta informativa;
_ produtos experimentais que incorporam o conceito de web semântica;
_ emprego de metadados e data mining para categorização e extração de conhecimento;
_ aplicação de novas técnicas e métodos para gerar visualizações diferenciadas para os conteúdos jornalísticos que auxiliam a sobrepujar a metáfora do impresso como padrão.

Esses diferentes modelos, conforme os autores, são complementares, podendo coexistir ou não em um mesmo período. O que determina as diferentes fases é a passagem, em cada uma delas, para um novo tipo de modelo que se torna predominante, relegando os demais a posições secundárias. O certo é que, hoje, convivemos com diversas características destes da 4º geração ao mesmo tempo.

Fonte: PRIMO, Alex (org.) Mapeamentos 2 – Ensino de Jornalismo Digital no Brasil em 2010. São Paulo; Itaú Cultural, 2010. 

  • Raw Nitro Review Dec 8, 2017 Reply

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