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Pedro Valente é jornalista, desenvolvedor de projetos online, trabalhou na TV Cultura realizando o Radar Cultura, e hoje é gerente de produtos do Yahoo! (http://www.linkedin.com/in/valentepedro)

Você se considera um jornalista multimídia?

Não, tentei ser designer, mas não consegui. Eu sou mais um programador-jornalista.Mas não sei se tem um rótulo, porque a gente faz várias coisas. Um dos meus objetivos era colocar um site no ar sozinho. Então fiz tudo: programação, texto, design. É claro que algumas coisas saem melhores que as outras, mas a gente acaba fazendo um pouco de tudo.

Qual sua rotina?

Sou gerente de produto no Yahoo! de uma equipe de inovação, pequena, para criar um novo produto. Criamos o Yahoo! Meme. O que eu faço é definir as prioridades do produto e ajudar a equipe a realizá-las , uma por vez. Trabalhamos com Scrum, uma metologia ágil. Existe a figura do Project Owner, esse é meu papel. O time diz o que pode fazer e em qual período de tempo. E eu faço o lead das tarefas, o que vai ser feito primeiro.

Você fez curso para usar o Scrum?

Só li uns livros e começamos. Eu estudava isso. Antes eu trabalhava na TV Cultura e tentei implantar isso lá para desenvolver de forma mais organizada. Quando no Yahoo! surgiu a chance de usar, foi ótimo. Antonio Carlos Silveira, que veio da Globo.com, e toda a Globo.com foi transformada em times de Scrum. Como ele eu aprendi bastante.

O que fazia na Cultura?

Eu era desenvolvedor, basicamente. Trabalhava no Radar Cultura, e a gente ficava inventando moda, o que poderíamos integrar com a rádio e a TV.

Pra fazer o que você faz, quais treinamentos alguém precisa? Precisa ser jornalista?

Eu acabei me treinando sem querer. Eu tenho que conversar com designers e programadores o dia todo, e preciso transmitir o que o usuário quer. Tudo o que aprendi de linguagem técnica é importante para essas conversas. Não sei se eu seria um bom programador, acho que seria pior que eles, mas esse conhecimento, saber qual coisa é mais ou menos complexa, isso me permite conversar com eles com algum respeito. O fato de eu ter ido atrás e aprendido a programar me ajudou muito. E mesmo se eu fosse trabalhar com jornalismo hoje seria igual, tentaria inovar linguagens, criar novas ferramentas.

No Radar, da TV Cultura, era jornalismo, não?

Jornalismo cultural participativo? Pode ser. Mas de novo, não me importa o rótulo. Sei que era divertido.

Ser jornalista é importante para realizar essas coisas?

O que você aprende com jornalismo é bem importante. Não escrever corretamente, que qualquer um faz isso, com alguma dedicação. Mas como saber o que é uma pauta legal? O faro da notícia? Como apresentar isso de uma maneira que o leitor entenda? Como traduzir o complexo para linguagens simples? Isso pode ser aplicado não só num texto. Isso ajuda muito.

Um jornalista precisa ter alguma habilidade ligada ao digital?

Depende do que ele quer fazer hoje. Talvez ele queira fazer o que sempre fez. Não podemos impor isso a eles. Mas a gente vê que o mercado está desmoronando. Se a pessoa não se mexer, alguma coisa vai acontecer. Ou ela perde o emprego, ou ela vai mesmo ser obrigada a aprender coisas novas. Existe sim uma pressão para as pessoas acharem uma maneira nova de fazer jornalismo.

Quais então seriam os pré-requisitos para esse novo jornalista?

Mais do que programação, é importante a pessoa estar antenada com o que está acontecendo nas redes, no mundo digital. Qual a necessidade dos que estão online. Você tem que aproveitar um comportamento existente e usar isso num projeto jornalístico. Colaboração, por exemplo. Por que não usar esse hábito de colaboração para criar um projeto jornalístico? Você não precisa ser programador. Precisa apenas se quiser conversar de detalhes técnicos com quem vai executar. O que é viável, o que dá para fazer ou não dá. Mas hoje tudo dá pra fazer. Se alguém disser que não dá, é mentira. Pode levar um tempão, mas dá.

Isso é mais importante. Acho impressionante como muita gente não se atualiza, não faz a menor ideia do que está rolando. Às vezes a gente encontra gente de nome, medalhões, que não fazem a menor ideia do que tem de novo. Olhar o que o NYT está fazendo, o Washington Post, os caras que estão na ponta.

E além de estar antenado, alguma outra habilidade que você acha que quem quer trabalhar nas redações da internet no Brasil hoje precisa?

Nas redações online que a gente tem hoje? Se você vai trabalhar nas redações de hoje, vai fazer notinha o dia inteiro e cozinhar matérias. Fora algumas excessões, como as áreas de infográficos, mas são incipientes. A grande massa faz notinhas e detesta. E os editores estão sobrecarregados e não conseguem pensar em como pode melhorar. Eu sugiro que, se a pessoa estiver na faculdade e tiver tempo, faz sozinho. Faz um blog, invente sozinho coisas que seriam legais. Não espere que os veículos dêem um formato. Vai ser o contrário, vai vir de baixo. Os formatos novos virão desse pessoal que experimenta, não das redações.

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